Por: www.dci.com.br
Diversas foram as conquistas das mulheres ao longo dos últimos anos. Diferentemente de décadas passadas, elas conquistaram seu espaço nos mais diversos segmentos: na política, no meio executivo, nas artes, no jornalismo e também no esporte.
Nascida na capital paulista, Ana Beatriz Figueiredo, conhecida como Bia Figueiredo, é um exemplo de que a mulher é vitoriosa. Única brasileira a pilotar um carro de Fórmula Indy, que chega a 300 quilômetros por hora, Bia, que iniciou no automobilismo com oito anos de idade, guarda feitos históricos em sua carreira.
Primeira mulher do mundo a vencer na Firestone Indy Lights e única a vencer na Fórmula Renault, Bia é a primeira brasileira a correr em uma categoria do automobilismo internacional, a Fórmula Indy, e a primeira a disputar a clássica corrida 500 Milhas de Indianápolis, nos Estados Unidos.
Ela é uma amante da velocidade, e, durante um encontro com a reportagem do Shopping News, na 26ª edição do Salão Internacional do Automóvel, conversou sobre sua carreira, sobre automobilismo e sobre seus projetos, entre outros temas.
Em tempos de Grande Prêmio Brasil de Fórmula 1, a brasileira - que busca inspiração no ídolo Ayrton Senna- também opinou sobre a principal categoria do automobilismo, e frisou que um brasileiro pode se consagrar campeão da etapa nacional. Quanto a uma futura participação na categoria, algo que também escreveria um novo capítulo na história da competição, Bia foi objetiva em um primeiro momento e afirmou que pensa em novos projetos na Fórmula Indy. Em outra ocasião, porém, a piloto deixou escapar um "possível" sonho de fazer parte deste grid da Fórmula 1. Segundo ela, a entrada das mulheres na Fórmula 1 depende de uma evolução no pensamento daqueles que promovem essa categoria esportiva. A seguir, os destaques do bate-papo com Bia Figueiredo.
No Brasil, que mantém uma cultura machista, como e quando aconteceu esse contato com o mundo da velocidade? Você trocou as bonecas pelo carrinho?
Desde criança. Acho que tinha uns cinco ou seis anos, e me recordo que era aquela época de ouro do Ayrton Senna na Fórmula 1 e do Emerson Fittipaldi na Fórmula Indy. Comecei a acompanhar as corridas e sempre tive paixão por carros. Eu era uma menina que gostava de bonecas, mas também gostava dessa adrenalina dos carros. Também era ligada a esportes, e meu pai, quando eu tinha uns cinco anos, me levou para assistir a uma corrida de kart em Interlagos. Fiquei apaixonada, e com oito anos entrei na escolinha.
Em sua família existe algum membro que tenha alguma ligação com o automobilismo?
Não. Meu pai é psiquiatra e minha mãe é dentista. Tinha um primo de segundo grau que corria no kart, mas não optou pela área.
Com oito anos você dirigiu um carro de kart. Explique como foi o momento para você.
Para mim foi a realização de um sonho. Era uma diversão, e mesmo naquela idade eu já andava a 100 km/h. A paixão começava a florescer, e já enxergava algo profissional.
E quando essa paixão pelo automobilismo começou a se tornar um pensamento profissional?
Sempre tive sorte de ter pessoas especiais a meu lado ao longo da minha carreira. Com 12 anos comecei a treinar com o Nô, treinador de pilotos como Barrichello e Tony Canaã, e quando fiz 15 anos ele me falou: "Ou você começa a se dedicar 100% a isso, ou..." Então fiz minha opção.
Do kart você passou para outras categorias, como Fórmula Renault e Indy Light, certo? E foi a primeira mulher a pilotar nessas categorias.Exato. Também era a única mulher no kart.
Exato. Também era a única mulher no kart.
Por ser mulher, sofreu com o pensamento machista? Foi vítima de preconceitos?
Sim. No começo da carreira, ainda no kart, foi difícil. O brasileiro tem essa cabeça machista. Perdi campeonatos por isso, pois perdia pontos, tendo em vista que por vezes tinha que jogar o concorrente para fora da pista para eu ser respeitada. Nos Estados Unidos eu tive um pouco mais de paz, pois eles já estão mais acostumados com as mulheres competindo.
E como foi driblar essas barreiras do preconceito?
Quando era criança, me lembro que eu chorava. Com amadurecimento comecei a revidar, e com isso começaram a parar. Muitos diziam que eu era brava e que jogava sujo, mas era uma espécie de proteção.
Você disse que não tem ninguém da família neste meio profissional. Comente a reação da sua família no momento de sua decisão. Em algum momento pediram para você desistir?
Meus familiares sempre me apoiaram. Eles tiveram condições de me colocar no kart, e tiveram a hora de saber tirar o pé. Quando se tornou profissional eles deixaram tudo por minha conta e risco. Por preconceito nunca pediram para eu desistir. Sei que eles ficavam chateados, mas não pediam para eu parar. Em dois momentos conversamos sobre uma possível desistência: o primeiro foi logo após a morte do Ayrton Senna, pois tinha acabado de começar, com oito anos, e eles me questionaram se eu gostaria de continuar e correr riscos. Depois, com uns 12 anos, uma época em que eu não estava me dando bem com resultados e equipe, me questionei se era o que eu queria. Consegui dar a volta por cima e decidi ficar no automobilismo.
Neste ano você marcou sua estreia no campeonato da Fórmula Indy, um dos mais velozes do automobilismo. Comente a sua participação nessa temporada.
Este ano foi minha estreia. Conseguimos fechar muito em cima da hora para a etapa de São Paulo, então optamos por realizar algumas etapas no ano: São Paulo; 500 milhas de Indianápolis, Chicago e Miami. A ideia era ganhar uma experiência para então realizarmos toda a temporada de 2011. O campeonato acabou e vamos recomeçar em março do próximo ano. Agora estamos na fase das negociações.
Neste domingo, 7 de novembro, acontece o GP Brasil de Fórmula 1. Como está o seu acompanhamento nessa categoria? Aliás, você pensa em ingressar nessa categoria?
Sim, acompanho sempre que posso. A prova do Brasil será mais uma vez emocionante, pois existe a possibilidade de o campeonato ser definido aqui. Meu foco atual é a Fórmula Indy. Quero me estabilizar nessa categoria, mas é lógico que se tiver uma oportunidade conversaremos sobre o assunto. Tenho vontade de testar um Fórmula, mas o ambiente da Indy ainda me agrada mais.
Você, que acompanha o esporte, e até sinalizou a importância do Grande Prêmio Brasil, comente essa evolução no quesito competitividade da Fórmula 1, que nos últimos anos tem sua definição no final de uma etapa.
Na época do Michael Schumacher somente os alemães ficavam felizes. Na verdade era um momento onde somente duas equipes disputavam o campeonato. Com as mudanças de regulamento começou um equilíbrio dos carros das diversas equipes. Hoje, temos umas quatro equipes na disputa. A mudança de pontuação também ficou interessante e deixou o campeonato equilibrado.
Qual é a sua avaliação sobre a participação dos pilotos brasileiros na Fórmula 1?
Hoje são quatro pilotos. O Rubinho traz na bagagem seu mais de 15 anos de Fórmula. Eu o admiro muito e tenho esperança de que ainda consiga se tornar campeão antes de encerrar sua carreira. O Massa está passando por um ano complicado, mas certamente em 2011 dará a volta por cima. O Lucas Di Grassi é um supertalento e tem muito a mostrar para os brasileiros, assim como o Bruno Senna, que precisa de melhores oportunidades, e é um nome para o futuro. Não somente na Fórmula 1, mas no automobilismo, um piloto precisa estar no lugar certo, na hora certa.
Você avalia que algum deles possa vencer a prova que acontecerá em Interlagos?
Acho que sim.